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Grandes psicanalistas: Virgínia Leone Bicudo

  • Foto do escritor: Helena Volani
    Helena Volani
  • 1 de abr. de 2024
  • 3 min de leitura

Virgínia Leone Bicudo foi um grande expoente no desenvolvimento da Psicanálise no Brasil e principalmente na cidade de São Paulo. Neta de escravos e imigrantes italianos. Seu pai tinha aspirações de se tornar médico, mas o fato de ser negro impossibilitou esse caminho. Virgínia se formou numa escola Normal do Braz que encaminhava suas estudantes para a vida do magistério. Depois de participar do curso de Educadores Sanitários na Escola de Higiene e Saúde Pública do Estado do Instituto de Higiene de São Paulo é promovida à Secção da Escola de Higiene Mental Escolar do Serviço de Saúde Escolar do Departamento de Educação e depois, em 1938, é nomeada Educadora Sanitária deste mesmo serviço. É interessante pensar como as políticas públicas, inclusive na educação, estava voltada a uma perspectiva higienista. Ela então relata a seguir porque mudou o rumo de sua vida, se dedicando então a Sociologia:  

"Eu tinha sofrimento, tinha dor e queria saber o que causava tanto sofrimento. Eu colocava que eram condições exteriores. Então pensei que, estudando Sociologia, iria me esclarecer…".   

Ingressou na segunda turma do curso na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, e lá conheceu Durval Marcondes, outro aluno que já médico, lecionava Psicanálise e Higiene Mental na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Virgínia era a única mulher cursando um dos oito bacharéis na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Escreveu a primeira dissertação de mestrado sobre a questão racial no Brasil intitulada “Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo” em 1945, defendida na mesma escola de sociologia. Na época de seu mestrado é professora assistente na matéria de Psicanálise e Higiene Mental.  

Se torna uma analista reconhecida dentro e fora do Brasil, sendo comentadora no livro “Negroes in Brazil: a study of race contact at Bahia” de seu orientador Donald Pierson em 1965. Além de ser uma das autoras de “Relações sociais entre negros e brancos em São Paulo” publicado em 1955. A experiência pessoal de Virgínia como mulher preta encaminha o trabalho de toda a sua vida. Discorre que o que a levou para a psicanálise foi o sofrimento que sentia pelo preconceito étnico/racial que sofreu.  

"O que me levou para a psicanálise foi o sofrimento que eu queria aliviar… Desde criança eu sentia preconceito de cor e procurei o curso de Sociologia para me proteger do preconceito". 

Virgínia fez sua formação psicanalítica com a analista alemã da IPA Dra. Adelheid Koch. A partir de 1936 desenvolve a carreira de psicanalista e de socióloga lado a lado, para mais tarde abandonar a sociologia para se dedicar integralmente à psicanálise. Com os colegas Durval Marcosndes, Adelheid Koch, Flávio Dias, Darcy Mendonça Uchoa e Frank Phillips funda o Grupo Psicanalítico de São Paulo, que virá a se tornar a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Em 1944 são reconhecidos oficialmente pela IPA, tendo Virgínia como tesoureira do grupo, depois irá ocupar cargos de secretária, supervisora, analista didata, professora e depois irá se tornar diretora por várias gestões do Instituto Durval Marcondes.  

Em 1954 é agredida verbalmente, junto com a colega Lydia Alcântara do Amaral, no Congresso de Saúde Mental. Psiquiatras contra a psicanálise as acusaram de exercício ilegal da medicina e charlatanismo. Essas duas psicanalistas foram fundamentais para a construção da psicanálise no Brasil.  

Virgínia teve um papel fundamental na divulgação da psicanálise, fundou um programa de rádio chamado “Nosso Mundo Mental”, na rádio Excelsior, onde por meio de um rádio teatro abordava conceitos como inconscientes, agressividade, inveja, ciúme, culpa, fantasia, amor, ódio de maneira simples por meio de temas do cotidiano da vida familiar. Seu programa se torna publicações no jornal “Folha da Manhã” que posteriormente em 1955 se tornam o livro “Nosso Mundo Mental”. 

Em 1955 vai para Londres estudar com os maiores nomes da psicanálise inglesa: Melanie Klein, Ernest Jones, Elliot Jaques, Clifford Scott, Michael Balint, Donald Winnicott, Money-Kyrle, Hanna Segal, Emilio Rodrigué, Anna Freud, Rosenfeld, Betty Joseph, Wilfred Bion, Paula Heimann e Esther Bick. Retorna ao Brasil em 1959 e retoma então suas atividades como analista, passa os próximos trinta anos clinicando na sua residência. Também foi professora da Universidade Nacional de Brasília e fundadora da sede de Brasília do Instituto de Psicanálise da SBPSB. Irá parar de atuar com 90 anos no ano 2000 e morrer três anos depois.  


Referência


Maria Helena Indig Teperman ; Sonia Knopf. Virgínia Bicudo: uma história da psicanálise brasileira. Jornal Brasileiro de Psicanálise. vo. 44 nº80. São Paulo jun. 2011. http://pepsic.bvsalud.org/pdf/jp/v44n80/v44n80a06.pdf 

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