top of page

A performatividade na histeria: um olhar despatologizador

  • Foto do escritor: Helena Volani
    Helena Volani
  • 12 de mar. de 2024
  • 14 min de leitura

Atualizado: 1 de abr. de 2024

Texto publicado originalmente no livro ""Género e Poder: performatividades contra-hegemônicas"


Charcot segura uma mulher, sua paciente, pela cintura com um só braço. O peso de seu corpo parece ser sustentado sem esforço pelo médico que nem a olha. Ela parece estar desmaiada ou em algum estado inconsciente, por isso não se sustenta. Suas costas fazem uma curva no antebraço de Charcot, seus pés estão apoiados no chão, suas costas em seu braço e sua cabeça se voltam para trás. Seu corpo parece representar ingenuamente o arco tão simbólico da patologia que representa, apesar de ser o braço de seu médico o vetor da sua curva. Atrás dela dois enfermeiros e um médico velam pelo corpo caso ele venha a cair. Do lado deles, há uma maca vazia, onde a moça será novamente colocada desacordada após o espetáculo apresentado. Na frente de todos eles, vinte homens sentados e seis em pé, exprimidos no espaço apertado da pintura. Do lado de fora da moldura, dentro da qual esta cena se passa, há espaço de sobra na sala para abrigar mais homens como esses. A sala não é muito grande, é de um tom terroso, quase laranja. As cadeiras são simples, de madeira, e estão dispostas desordenadamente no chão. Há somente uma pequena mesa sob três lâmpadas com alguns instrumentos sobre ela perto do médico e sua paciente. Charcot olha para seus pares, enquanto todos olham para aquele corpo. Esta é uma descrição de "Une leçon clinique à la Salpêtrière”, a obra é uma representação pictórica feita de uma sessão de terça-feira por André Brouillet, durante uma sessão de hipnose em uma de suas pacientes.   

Gostaria de me aproximar do trabalho de Charcot com a histeria. Quero pensar como um médico que “acidentalmente” se torna responsável por uma ala inteira dentro do maior asilo para mulheres da França, a Salpêtrière, “ficou conhecido como o fundador da neurologia” (Didi-Huberman, 2015, p. 39) e de que maneira, a partir de que métodos, ele consolida sua prática. Faço isso não para desvalidar os acasos que levam todos nós aos lugares inimagináveis que estamos e vamos estar em nossas vidas, ou com a pretensão de verdadeiramente desvendar o homem “Charcot”. Mas acredito que ele deixa em seus textos, e também em sua história, pistas do seu desejo para aqueles corpos, e, para mim, isso é extremamente importante para a consolidação da história da maneira como ela ocorreu. Esta crítica também não vem acompanhada de como os eventos poderiam ter se desdobrado de maneira mais gentil, mas de uma análise de como o episódio da histeria na Salpêtrière ainda hoje sobrevive violentamente os nossos corpos, para assim podermos pensar em uma vida mais livre.    

Parece-me de grande importância distinguir dentro da profissão médica as funções da “cura” e da “pesquisa”. Charcot era um pesquisador, não um curandeiro, e não deveria ser a pessoa responsável por curar centenas de pessoas em sofrimento. Tento apontar nesta monografia como curar os histéricos e as histéricas nunca foi o principal objetivo de Charcot, pois há um desvio de foco na cura dessas centenas de pessoas, ou ao menos no alívio das suas dores. O exercício da pesquisa, muitas vezes acompanhado de um reconhecimento científico e pessoal, pode ir contra o dever médico e aumenta o sofrimento das pessoas. O que promovo aqui vai além de um questionamento puramente ético. Trata-se de refletir sobre como as ações de Charcot, voltadas principalmente para a pesquisa, ao invés da cura ou alívio do sofrimento daqueles corpos, trazem embaraços em sua própria pesquisa. Como promover a cura de uma patologia quando se coloca numa perspectiva de promover a patologia?  

A maneira pela qual Charcot se tornou “especialista” em histeria e responsável por ela, explica Didi-Huberman, foi por acaso. O prédio Sainte-Laure da Salpêtrière teve de ser interditado pelas más condições do ambiente, por isso a administração do hospital decidiu usar a ocasião para separar as internas, que estavam todas na ala psiquiátrica, em psicóticas e não-psicóticas, criando assim um novo setor no hospital: o “Setor das epiléticas simples”. Este setor foi delegado a Charcot por ser o médico mais antigo da instituição. Este novo “setor especial” recebia tanto as internas epiléticas quanto as histéricas, pois o que as reunia nesse setor eram as crises convulsivas. Portanto, Charcot desceu aos infernos. E não se sentiu muito mal por lá.   

É que essas quatro ou cinco mil mulheres infernais foram um material para ele: de fato, mergulhado desde 1862 no inferno, Charcot teve a sensação agradável e científica – como se diz, calorífica, soporífica ou honorífica onde o “-fica” aparece como um derivação factiva muito, muito forte -, teve a agradável sensação, dizia eu, de penetrar num museu, pura e simplesmente. Ele próprio o disse bem: um museu patológico vivo, com seu “acervo” antigo e seu novo “acervo”. DIDI-HUBERMAN, 2015, p. 37.  

Pois o “setor especial” da Salpêtrière se transformou exatamente num museu de acervo vivo, trazendo para sua essência: a tradição de séculos presente em um Museu de História Natural; a validação científica de um Museu de Ciência; a “beleza” em significar/criar corpos e o mundo que encontramos em um Museu de Arte e a crueldade de um zoológico. O setor se transformou em um espetáculo que encantou, e encanta, com seus sintomas, antes caóticos, agora organizados por esse médico, com corpos que então repetiam, repetiam, repetiam quatro fases que um homem havia descrito: que tremiam, contorciam, gritavam, e – se fossem mulheres – crucificavam ou se viam na boca de um orgasmo. Como essa descrição parece ser espetacular para os médicos: alguém que coloca ordem ao caos, sintomas à farsa, descrição à doença, e ainda demostra isso com corpos, prontos para performar sua dor, ao bel-prazer daqueles que olham seu sofrimento e assim, talvez já me adiantando um pouco, o controlam, o promovem.   

Charcot era como Adão, um Adão diante de quem Deus teria feito desfilaram as entidades nosológicas, a fim de que ele lhes desse nomes... (FREUD apud DIDI-HUBERMAN, 2015, p. 40).  

Quem é aquele que dá nome, aquele que batiza, que insere na linguagem, na significação, senão o criador? “No princípio era o verbo”, gênese que trago aqui como uma metáfora do estado humano no mundo, inicia explicitando que a criação se dá a partir do verbo, da palavra, da linguagem. Dar nome às coisas é o que faz com que elas existam. Não que elas materialmente não existissem antes de serem nomeadas, mas só há uma relação humana com o mundo a partir de uma nomeação, conceituação, significação, que extrapola a materialidade da coisa em si e por isso já se torna uma criação humana. Não existe nomear sem alterar, não há como fotografar sem mudar, não temos como conceituar e no próprio ato mudar a conceituação. Estamos fadados a ter a materialidade do mundo escorrendo por nossas mãos enquanto tentamos cercá-la. Podemos tentar analisar, interpretar, entender, mas nunca apreender a realidade. Criamos leis para que nós mesmos as obedeçamos, o universo não se restringe com elas. Apesar disto, era uma pretensão de Charcot encontrar os parâmetros da histeria, ser a pessoa que desvendasse o seu mistério e que a partir da sua lei ninguém pudesse contestá-lo, ou contestá-la. “A histeria apresentava aos seus olhos uma sintomatologia bem definida, obedecendo a regras precisas. Esse reparo é importante, porque lhe permite afastar a hipótese de simulação, o grande fantasma da psiquiatria do século XIX” (Garcia-Roza, 2008, p. 32).  

Charcot usava uma de suas ferramentas de “cura”, também como ferramenta de controle e encenação. A hipnose era uma das principais metodologias utilizada por Charcot para explicar o funcionamento da histeria. Além disso, como aposta para a melhora dos casos, a hipnose era também utilizada frequentemente, com a pretensão de entender o sintoma histérico, para fabricar algum sintoma nos internos, para gerar crises, para intercambiar sofrimentos. Essa metodologia também era utilizada na tentativa de retirar os sintomas histéricos, porém com menos sucesso nesta tarefa do que no grande êxito que esta tinha na sua criação. Os sintomas criados por Charcot eram frequentemente anulados, segundo ele, desde que ele os retirasse dos internos em pouco tempo. Já se os sintomas perdurassem, como os sintomas das pessoas que chegavam à Salpêtrière, com sintomas mais duradouros, raramente era possível que Charcot os eliminasse através de seu método, não com a mesma facilidade com que ele tinha para produzi-los. Parece-me claro que o método empregado por Charcot era muito mais eficiente na promoção da histeria do que na sua cura.  

O emprego da hipnose tinha por objetivo o controle da situação. Através da sugestão hipnótica, o médico podia obter um conjunto de sintomas histérico bem definido e regular; mas isso evidencia, ao mesmo tempo, que a histeria nada tinha a ver com o corpo neurológico, mas com o desejo do médico7. É numa tentativa de superar esse impasse que Charcot vai elaborar a teoria do trauma. GARCIA-ROZA, 2008, p.34.  

Como a histeria não apresentava lesões anatômicas com as quais Charcot pudesse comprovar a patologia, ele viu na criação de iconografia forte, incontestável, a forma de criar uma ordem, uma lei para a histeria. Provando que mesmo sem uma lesão anatômica possível de ser acessada por médicos, existe uma série de movimentos que esses corpos irão reproduzir, fases que se repetem, ao fotografar isso num momento da ciência em que as fotografias eram dadas como prova, como materialidade do mundo, tudo isso coloca Charcot muito perto desse seu objetivo. Controlar esses corpos e garantir tal constância na maneira como a histeria se manifesta se torna ponto central da sua pesquisa. Por isso:   

[...] construiu-se na Salpêtrière algo como uma grande máquina óptica para decifrar os lineamentos invisíveis de um cristal: a grande máquina – territorial, experimental, mágica – da histeria... E, para decifrar o cristal, era preciso quebrá-lo, fascinar-se com a sua queda, quebrá-lo de novo, inventar máquinas propicias a uma queda mais visível, mais regulada, e quebrá-lo outra vez, só para ver o que acontecia! DIDI-HUBERMAN, 2015, p. 28-29.  

Assim os internos da Salpêtrière foram sendo quebrados, em busca da constância em sua quebra. E cada vez foram sendo quebrados de maneiras melhores, mais visíveis, mais intensas, mais profundas, mais duradouras. Todo cristal racha, e quebra, mas sempre com as suas peculiaridades, sempre com as suas diferenças. A necessidade da constância para a criação de uma sintomatologia muito bem definida que desembocaria em uma imagem que poderia ser validada como uma nosografia da histeria, transforma a hipnose, de ferramenta de pesquisa a uma potente ferramenta de controle e performance, onde os sintomas, as quatro fases muito inspiradas em uma das suas internas, Luise Augustine Gleizes9, eram reproduzidos em outros corpos. O controle sobre o corpo passava do controle hipnótico, Charcot invadia os corpos também com drogas (para além daquelas já ingeridas pelos internos regularmente, havia o estar “fora de si” para a performance).“Em suas encenações realizadas na Salpêtrière, as inalações de nitrato de amilo ministradas por seus assistentes às pacientes desempenhavam um papel tão importante quanto o ritual do hipnotismo.” (GARCIA-ROZA, 2008, p. 33).  

Charcot era um homem que tinha o objetivo de criar doenças, não de curá-las. Suas empreitadas na medicina estavam ligadas não a uma vontade de diminuir o sofrimento daqueles que ele tratava, mas sim de ter poder sobre seus corpos e adequá-los a uma patologia, estava mais interessado nesses corpos como corpus de pesquisa do que como corpos humanos em hospitais em busca de tratamento, e frequentemente abandonava esses corpos as suas dores em vista do que acreditava ser “melhor para a sociedade”.  

O poder só é tão potente porque não podemos, verdadeiramente, defini-lo ou cercá-lo. Charcot não é o vetor do poder que nos aprisiona nessas imagens. Ele cria, a partir de certos referenciais, imagens verossímeis para uma patologia e as chancela dentro do discurso, extremamente colonizador, das ciências médicas. Mas a real dificuldade e resistência se encontra ao nos depararmos com o caráter rizomático do poder, isso demanda a maturidade de entendermos, todas e todos, como agentes de permanência de uma ordem deste poder. Quando tomaram de empréstimo o conceito de rizoma da biologia, Deleuze e Guattari apropriaram-se do sistema como as raízes das plantas funcionavam e reimaginaram as formas de interação. Utiliza-se essa imagem, o rizoma, para não mais pensar o mundo a partir de ligações diretas, horizontais, bidimensionais e unilaterais, mas a partir de um sistema de conexões difusas, heterogêneas, múltiplas, plurais e emancipadas. Um rizoma é mantido por todos aqueles que fazem parte da sua corrente de significação, por isso ele “não cessaria de conectar cadeiras semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais.” (DELEUZE; GUATTARI, 1995 p. 14-15). Assim, entendo que a permanência das imagens produzidas por Charcot faz parte de um movimento rizomático de difusão de um modo validado de sofrimento, seja por quem sofre, seja por quem observa sofrer.   

O rizoma nele mesmo tem formas muito diversas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos. Há rizoma quando os ratos deslizam uns sobre os outros. Há o melhor e o pior no rizoma: a batata e a grama, a erva daninha. Animal e planta, a grama é o capim-pé-de-galinha. DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 14.  

Dentro de condições não extremas da vida contemporânea, nada e nem ninguém me obriga a ser ou a produzir da maneira como sou ou produzo, mesmo assim o faço carregando discursos de poderes que se apoderam do meu corpo, e se torna parte do meu discurso, e assim, sem nenhuma “obrigação”, me torno um agente destes poderes. Tudo isso, concomitantemente, que me disponho também como resistência contra este poder. Por isso, acredito ser tão importante entender os caminhos desse poder, como ele vem a nos habitar e nos torna seus agentes, como foi possível que as coisas viessem a ser como elas são para que nós nos formássemos dessa maneira.  

Interessa-me Charcot, pois a imagem que ele criou continua atravessando corpos, mesmo ele há muitos anos já morto, há muito tempo não hipnotizando mais ninguém. Isso para provar a intensidade da força com que essas imagens nos penetram. E como a reprodução dessas imagens, que pode ser nas telas, em textos, fotografias ou nos próprios corpos, promove a penetração dela em novos corpos. Como profetiza Judith Butler em “Bodies that Matter” (Corpos que Importam)12, “os efeitos de nossas palavras são incalculáveis, uma vez que os performativos e suas significações não têm começo nem fim.” (apud SALIH, 2015, p.136). Essas imagens colonizam e povoam os corpos ao demostrarem as formas possíveis e validadas para o sofrimento. Performamos o sofrimento de forma que que ele possa ser decodificado e acolhido por aqueles que nos rodeiam, performamos a partir de um código de linguagem corporal, imagético e sonoro possíveis. Performamos não como uma atriz que finge ser Ofélia no palco, nem mais como as pacientes de Charcot que performavam hipnotizadas, performamos como todas as mulheres performam o seu gênero durante toda a sua vida, a partir de símbolos que serão reconhecidos, mas que não deixam de fazer parte de como aquele sujeito expressa a sua subjetividade.   

Penso aqui no conceito de performatividade de Austin, repensado por Judith Butler, que pensa o sexo como construção. “A performatividade deve ser compreendida não como um 'ato' singular ou deliberado, mas, ao invés disso, como uma prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz os efeitos que ele nomeia”. (BUTLER, 2001, p. 154). Pensar a manifestação imagética/corporal da histeria como performatividade do sofrimento é diferente do que me juntar aos vários médicos do século XIX e dizer que esses corpos estavam fingindo, muito pelo contrário, acredito que esses corpos são tomados pelas manifestações possíveis e validadas do sofrimento. Não há um pensamento ou controle consciente sobre essas performances do sofrimento, mas essa performance não é o sofrimento em si, é somente a maneira como este se manifesta. Trazer Butler é pensar como há uma performatividade a partir de um modelo anatômico cientificamente validado, que nos faz sofrer de uma forma normativa, que valida o sofrimento a partir de uma performance corporal.   

Butler desenvolve o conceito de performatividade de gênero, baseando-se em filósofos como Austin, Derrida e Foucault, no intuito de pensar o gênero como uma construção, dentro de uma lógica binária que se constrói e se perpetua através do discurso. O que possibilita isto é a reiteração dos atos que legitimam o gênero como natural, binário e a-histórico. O conceito de performatividade, primeiro teorizado por Austin na linguística, fundamental para a teoria queer, propõe que o discurso sobre tais corpos não apenas os testemunha, mas também, produz verdades nesses corpos. Há uma naturalização de tal discurso que assume e reforça a identidade heteronormativa, e materializa na vida de todos a sequência sexo-gênero-sexualidade. VILSEKI; VOLANI, 2017, p. 444-445.  

Validamos uma orientação sexual e uma expressão de gênero a partir de uma performatividade sexual, inundada de signos binários, que nos dividem entre “mulheres” e “homens”, “gays” e “heteros”... Penso que a performatividade que proponho, não somente nos divide entre “loucos” e “sãos”, mas promove as únicas maneiras pelas quais podemos sofrer, as únicas maneiras com que podemos interagir com a nossa dor, as únicas maneiras que conseguimos conectar o mundo com a nossa sina e esta comunicar-se com o outro. É esse o trabalho de Charcot, ter criado um almanaque da imagem da histeria a partir do qual este mal é visto, decodificado e validado, e só por isso é desta forma que é assim que ele é performado. Para que assim ele possa ser acolhido.   

Lembrando que não estou escrevendo aqui sobre o conceito de histeria cunhado por Charcot, que rapidamente foi substituído, mas sobre a forte iconografia da histeria produzida por ele no Hospital da Salpêtrière que até hoje encarna corpos. Se Salih, pensando em Butler, adapta a afirmação de Beauvoir “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, para “Não se nasce mulher, se é chamado de mulher” (2015, p.109), gostaria de pensar uma nova reformulação para este estudo: não se é histérico, se é chamado de histérico. Escrevo isso pensando que a “declaração constatativa é sempre em alguma medida performática.” (BUTLER apud SALIH, 2015, p.124). Ou seja, aqueles corpos só se tornaram histéricos (da mesma maneira que certos corpos só se tornam mulher) porque esses foram constatados com tais denominações e por isso fadados a performar suas dores (e sua identidade) a partir de um código. Esses corpos por sua vez se apropriam desses códigos a fim de serem, e entenderem-se, sujeitos a partir das denominações propostas para os seus corpos.  

Por certo os próprios sujeitos estão empenhados na produção [desta imagem] em seus corpos. O processo, contudo, não é feito ao acaso ou ao sabor da de sua vontade. Embora participantes ativos dessa construção, os sujeitos não a exercitam livres de constrangimentos. Uma matriz [...] delimita os padrões a serem seguidos e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, fornece a pauta para as transgressões. LOURO, 2015, p. 17.  

Não é muito difícil pensar em transgressões ao pensar os corpos loucos, mas há dentro do sofrimento psíquico uma grande área para corpos em sofrimento domesticado, onde inclusive as transgressões são necessárias para manter tais corpos mansos e assustados. A entrada da dor emocional no campo das ciências médicas promove uma nova imagem para a dor, onde esta se afasta de uma dor-sofrimento e se aproxima de uma dor-doença. Tornando esses corpos inseridos cada vez mais num discurso anatômico, docilizado e medicalizante. “Os domínios da ‘representação’ política e linguística estabeleceram a priori o critério segundo o qual os próprios sujeitos são formados, com o resultado de a representação só se estender ao que o pode ser reconhecido como sujeito” (BULTER, 2015, p.18).  

Reconhecer-se como sujeito e ser reconhecido coloca-se como uma questão central no mundo contemporâneo. “O corpo é apresentado como mero instrumento ou meio com o qual um conjunto de significados culturais é apenas externamente relacionado. Mas o ‘corpo’ é em si mesmo uma construção” (BUTLER, 2015, p. 30), neste sentido, pensando a construção da histeria, aquelas mulheres não eram histéricas antes de serem produzidas desta forma. Dito isto, não implico aqui dizer que aqueles internos, cada um em sua particularidade, não sofriam, acredito na dor-sofrimento de cada um deles, o que questiono aqui é a dor-doença que foi incumbida àqueles corpos. Assim, toda esta pesquisa “não significa que não exista essa coisa de corpo material, mas que só podemos apreender essa materialidade através do discurso.” (SALIH, 2015, p.105).  

Como escrevo no início desta seção, apesar de querer, sei que as coisas não poderiam ter sido mais gentis com aqueles corpos da Salpêtrière, mas gostaria de poder pensar hoje numa vida mais livre, porque as identidades [...] são construídas e constituídas pela linguagem, o que significa que não há identidade [...] que preceda a linguagem. Se quiséssemos poderíamos dizer: não é que uma identidade “faça” o discurso ou a linguagem, mas é precisamente o contrário – a linguagem e o discurso é que “fazem”. (SALIH, 2015, p. 91).  

E se partimos deste pensamento de Salih com Butler, podemos tensionar a linguagem em busca de uma vida mais autônoma e de um sofrimento menos patológico. Isto não significa uma completa revolução no sistema de saúde, ou o abandono completo dessas imagens a partir de um estudo científico, mas maneiras de minar práticas despotencializadoras a partir de pequenos curto circuitos, ações que tornassem, não o sistema mais livre, mas que emancipasse as próprias pessoas para elas próprias perceberem “que elas são muito mais livres do que pensam; que elas tomam por verdadeiro, por evidentes, certos temas fabricados em um momento particular da História, e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída.” (FOUCAULT, 2017, p. 288). E assim poder mudar a própria maneira de se ver e se colocar na ordem de significação, pois “não existe nenhum poder que age, mas apenas um agir reiterado, que é o poder em sua persistência e instabilidade.” (BUTLER apud SALIH, 2015, p.115). E esses são os maiores desafios, mas também as maiores potências enquanto busca de novas maneiras de viver mais livre: persistência e instabilidade.   

 

Referências Bibliográficas  

Butler, J. (2001). Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In. Louro, G. L. (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. (2.a ed.). Belo Horizonte: Autêntica. 

Butler, J. (2015). Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. (8.a ed.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 

Deleuze, G. & Guatarri, F. (1995). Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia. (Vol. 1). Rio de Janeiro: Editora 34. 

Didi-Huberman, G. (2015). Invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtriére. Rio de Janeiro: Contraponto. 

Foucault, M. (2017). Ditos e escritos: ética, sexualidade e política. (3.a ed.). Rio de Janeiro: Forense Universitária. 

Garcia-Roza, L. A. (2008). Freud e o incosciente. (23.a ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 

Louro, G. L. (2015). Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. (2.a ed.). Belo Horizonte: Autêntica. 

Salih, S. (2015). Judith Butler: e a teoria queer. (1.a ed.). Belo Horizonte: Autêntica. 

Vilseki, A. & Volani, H. (2017). Fissuras da Linguagem Cinematográfica na Construção do Cinema Queer Contemporâneo Brasileiro. (pp. 440-452). Anais do V Seminário Nacional Cinema em Perspectiva e IX Semana Acadêmica de Cinema. Curitiba. 

Comentários


bottom of page