Por qual razão? A prisão da vida patologizada
- Helena Volani

- 27 de mar. de 2024
- 28 min de leitura
Atualizado: 1 de abr. de 2024
Ela se senta uma, duas, três, quatro vezes em frente de novos psiquiatras. Sempre um novo porquê, por algum motivo teve de deixar o último. Depois do ritual de apresentação comum a qualquer nova pessoa, ela faz um pedido que mais soa como uma ordem misturada com uma súplica: “eu não quero que você me dê um laudo”. Eles nunca estavam preparados para essa frase, é como se ela chegasse de rasteira e os derrubasse de suas cadeiras. Essa frase, que para nenhum deles pareceu fazer sentido. Tanto que tal afirmação era sempre seguida de uma discussão extensa sobre por qual razão eu não queria um aval para sofrer. Eles genuinamente queriam entender, porque para eles não fazia sentido algum alguém sofrer sem querer o conforto da validação médica. Alguns tomaram minutos do meu tratamento falando disso, outros umas duas sessões, um deles ficou todas as sessões, certa de uns cinco/seis meses discutindo durante todas as sessões, incrédulo de que a moça que estava na sua frente não se submeteria ao livro que ele julgava salvar tantos.
Uns deixavam isso transparecer, outros menos, mas o ponto é que de certa forma talvez todos eles acreditavam estar com a razão e não encontravam no meu discurso uma razão de ser. Uso razão aqui como uma palavra associada ao pensamento científico, não só pensando um método, mas admitindo que o considerado científico passa por uma validação de discurso, onde o discurso com mais eco é o que reverbera como verdade científica. E nenhum discurso é mais forte ou tem mais eco do que o discurso médico. Por isso, pensar o sofrimento a partir de qualquer outra área do conhecimento: filosofia, psicologia, psicanálise, sociologia, teologia... não é tão forte ou potente quanto o discurso patológico proposto pela medicina. Porque o caráter de verdade do discurso médico não é abalado pelas quaisquer outras áreas do conhecimento. A medicina se põe como Deus, esse Deus redigido em maiúsculo, controlando as pessoas em nome da vida. De um projeto de vida domesticada.
Minha hipótese é que com o capitalismo não se deu a passagem de uma medicina coletiva para uma medicina privada, mas justamente o contrário; que o capitalismo, desenvolvendo-se em fins do século XVIII e início do século XIX, socializou um primeiro objeto que foi o corpo enquanto força de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade biopolítica. A medicina é uma estratégia biopolítica. FOUCAULT, 2017, p.144.
O corpo domesticado enquanto força de trabalho em uma lógica capitalista não almeja em uma busca a saúde mais o bem-estar físico, social e psíquico, mas os investimentos da saúde são em torno de um corpo produtivo e que produz mais por mais tempo para um sistema capital. Foucault faz uma retomada histórica para pensar como a medicina infiltra nas diversas esferas sociais, até chegar no corpo como objeto de emprego de poder. “A medicina dos pobres, da força de trabalho, do operário não foi o primeiro alvo da medicina social, mas o último. Em primeiro lugar o Estado, em seguida a cidade, e finalmente os pobres e trabalhados foram objetos da medicalização.” (FOUCAULT, 2017, p.164). Quando cita a medicina dos pobres, Foucault referencia o movimento de voltar-se para o proletariado, movimento que se inicia na Inglaterra no século XIX, mas demonstra como isso só foi possível porque, antes o poder médico infiltra-se na legislação, e em como o governo gere o Estado, demonstrando com o movimento da medicina social na Alemanha que ainda se constituía como um Estado em formação. E depois, entranhar nas cidades como aconteceu em Paris, onde a medicina acabou por mudar a arquitetura da cidade. Para então, na Inglaterra, depois desses modelos, a medicina social, ter grande força e abrangência em modelar os corpos e a vida, principalmente a vida proletária. Isto se dá, segundo Foucault, porque o corpo começa a se tornar, também, uma ameaça à saúde e à vida dos menos abastados.
Foi somente no segundo terço do século XIX, que o pobre apareceu como perigo. As razões são várias:
1º) Razão política. Durante a Revolução Francesa e, na Inglaterra, durante as grandes agitações sociais do começo do século XIX, a população pobre tornou-se uma força política capaz de se revoltar ou, pelo menos, de participar de revoltas.
2º) No século XIX encontrou-se um meio de dispensar, em parte, os serviços prestados pela população, com o estabelecimento, por exemplo, de um sistema postal e um sistema de carregadores, o que produziu uma série de revoltas populares contra esses sistemas que retiravam dos mais podres o pão e a possibilidade de viver.
3º) A cólera de 1832, que começou em Paris e se propagou por toda e Europa, cristalizou em torno da população proletária e plebeia uma séria de medos políticos e sanitários. A partir dessa época, se decidiu dividir o espaço urbano em espaços pobres e ricos. FOUCAULT, 2017, p.165 - 166
Nesta época o corpo pobre causando uma ameaça ao burguês tanto na sua materialidade biológica, na sua insatisfação política e também na sua movimentação dentro da arquitetura urbana. Tem-se um corpo a ser domesticado. E a medicina foi uma das maneiras que este corpo foi restringido, inspecionado, controlado e apreendido. Quando analisando os modelos pelos quais a medicina passa, Foucault revela a proximidade dos métodos de vigilância e dos esquemas de quarentena do final da Idade Média, onde os próprios corpos se retiravam e se regravam a uma exclusão conjunta e se submetiam a uma revista, com os modos que as instituições médicas ainda funcionam.
Tem-se, portanto, o velho esquema médico de relação à lepra que é de exclusão, de exílio, de forma religiosa, de purificação da cidade, de bode expiatório. E o esquema suscitado pela peste; não mais de exclusão, mas o internamento; não mais o agrupamento no exterior da cidade, mas, ao contrário, a análise minuciosa da cidade, a análise individualizante, o registro permanente; não mais um modelo religioso, mas militar. É a revista militar e não a purificação religiosa que serve, fundamentalmente, de modelo longínquo para essa organização político-médica.
A medicina urbana com seus métodos de vigilância, de hospitalização etc., não é mais do que um aperfeiçoamento na segunda metade do século XVIII, do esquema político-médico da quarentena que tinha sido realizado no final da Idade Média, nos séculos XVI e XVII. FOUCAULT, 2017, p.157.
As instituições médicas, como hospitais que vigiam seus pacientes, estão muito perto deste sistema. Mas o movimento social que promove com que todas e todos vigiemos aos outros e a nós mesmos, procurando vestígios de patologias, também é uma realidade pulsante. A partir de um conceito de saúde e doença, que se pretende único, porém, inconstante, somos submetidos, e nos submetemos, a um modo de vida domesticado. Com o controle dos corpos promovido a partir de uma lógica positivista, parte-se para não uma restrição do que se pode ou não fazer, mas uma promoção da própria ação. O controle sobre os corpos, a vida e a morte continuam a afetar intensamente a vida de todos, mas de uma lógica bastante diferente a partir da instauração do biopoder como principal ferramenta de docilização de corpos.
E ao diferenciar o biopoder do poder de soberania ao qual ele sucede historicamente, [Foucault] insiste sobretudo na relação distinta que entretém, cada um deles, com a vida e a morte: enquanto o poder soberano faz morrer e deixa viver, o biopoder faz viver e deixa morrer. Dois regimes, duas lógicas, duas concepções de morte, de vida, de corpo. PELBART, 2011, p.55.
Penso esse lugar como um sufocante discurso que não deixar ar para qualquer modo de vivência ou sobrevivência que não esteja ligado ao poder médico sobre o corpo. Se num passado não tão distante fomos dominados pela religião e pela lei, na contemporaneidade é o poder médico o discurso que mais afeta os corpos, e nos rouba a autonomia de viver e, até, de sofrer. No tocante deste movimento estão os conceitos de medicalização da vida e biopolítica. O conceito de biopolítica foi cunhado por Foucault para delimitar propriedades do poder sobre os corpos, a vida a partir do discurso/saber sobre o sujeito, prática que para Foucault se instaura a partir do século XVIII com a modernização da medicina. Já o conceito de medicalização da sociedade aparece pela primeira vez na literatura no artigo “A medicina como uma instituição de controle social” escrito pelo sociólogo Irving Kenneth Zola, onde ele analisa como a medicina se torna uma instituição de controle dos corpos. Ambos os conceitos descrevem uma forte demanda sobre nossos corpos, colocando-nos em movimento como marionetes guiadas por fios patologizantes, domesticando tanto os corpos ditos doentes, quanto os corpos ditos saudáveis. Onde todas as nossas decisões, desejos, ações, refeições, hábitos... estão pautados dentro de um espectro que se aproxima ou se afasta de uma vida saudável e, consequentemente, de uma vida patológica. Tudo isso em nome deste grande bem, “a vida”. Controla-se para mantê-la a salvo de seus detentores, os próprios seres humanos. “O fato é que o que somos parece estar inseparável do discurso biomédico.” (AMARANTE; FREITAS, 2015, p.11).
A medicalização da vida
Hábitos antes normalizados dentro da sociedade começam a ser vigiados e até legislados e punidos a partir de um investimento médico. Supondo que os sujeitos não são capazes de decidir sobre as melhores condutas sobre o próprio corpo, e daqueles que estão próximos.
O poder médico invade várias instâncias de nossas vidas, que vai além do profissional da saúde, mas se espraia para todas as áreas da nossa vida, absorvendo o que antes pertencia ao meio social, cultural e/ou político, para a jurisdição biomédica. Este é justamente o conceito de medicalização, a ideia que circunstâncias desagradáveis e indesejadas que antes faziam parte das experiências que os seres humanos passavam durante a sua vida, se tornam objetos da mirada médica, esta que categoriza, patologiza, trata, cura e previne. E neste processo é “[...] a própria medicina e suas práticas afins [que] são responsáveis pelo nosso adoecimento, ao medicalizarem as experiências mais comuns e naturais da nossa experiência.” (AMARANTE; FREITAS, 2015, p.13). No que se refere às experiências de vida, estas são pormenorizadas em relação ao que se interpreta como um descompasso biológico, tornando a vida de todos, inclusive os normais, encapsulada em uma existência que não permite sentir intensamente o que temos de mais humano.
Morte, dor e doença são experiências que fazem parte da experiência humana. Para enfrenta-las, as sociedades desenvolveram meios para ajudar as pessoas a suportar essas difíceis questões da vida. Saúde pode mesmo ser definida como saber lidar satisfatoriamente com essas tais experiências. A esse respeito, a medicina moderna tem desafortunadamente destruído tanto capacidades culturais como individuais de se lidar com ela, substituindo-as por tentativas desumanas de transformá-las em mercadorias. AMARANTE; FREITAS, 2015, p.26.
Dentro desta perspectiva, a medicalização da vida como controle dos corpos a partir de um discurso de poder se torna mais evidente na psiquiatria. É aqui onde as experiências mais puras e cruas do ser humano como a tristeza, a raiva, o desejo, o medo... se tornam patológicas a partir de uma teoria bioquímica que se sustenta pelo poder da sua difusão e propagação entre a comunidade médica e pelo desejo daqueles que preferem se desresponsabilizar pelo seu sofrimento. Mais adiante trarei uma desconstrução da teoria bioquímica, neste momento gostaria de me deter na subjetivação dos indivíduos como pessoa doente.
Para muitas de nós, o hospital era tanto um refúgio quanto uma prisão. Embora estivéssemos afastadas do mundo e de todas as confusões que adorávamos aprontar nele, também estávamos afastadas das cobranças e das expectativas que nos haviam enlouquecido. O que podiam cobrar de nós, enfiadas no hospício?
O hospital nos protegia de todos os tipos de coisas. Pedíamos às funcionárias para não aceitar telefonemas ou visitas de pessoas que não queríamos falar, ainda que fossem nossos pais.
-Estou transtornada demais! – choramingávamos e, assim, não precisávamos falar com quem quer que fosse.
Enquanto estivéssemos dispostas a continuar transtornadas, não precisaríamos arranjar trabalho ou estudar. Conseguiríamos nos esquivar de quase tudo, a não ser de comer e de tomar medicação.
Em um estranho sentido, éramos livres. Tínhamos chegado ao fim da linha. Não tínhamos mais nada a perder. Nossa privacidade, nossa liberdade, nossa dignidade: tudo isso tinha acabado. Estávamos despidas até o osso.
Assim nuas, precisávamos de proteção, e o hospital nos protegia. É claro que primeiro o hospital nos desnudava -, mas isso apenas reforçava sua obrigação de nos dar abrigo. KAYSEN, 2013, p. 110 – 111.
Na perspectiva da patologização é a partir da sua abjeção, e não da sua existência, que se consegue conhecer a si própria. O movimento do desejo de sujeitos que sofrem e abrem mão de uma autonomia de sofrer a fim de encontrar uma resposta, uma nova identidade na patologia. E ao fazer isso, abre-se mão de si mesmo.
A medicalização é operativa, já que nos isenta de assumir responsabilidades pessoais e coletivas. E sofremos... Sofremos com tantas coisas que nós mesmos produzimos. Illich afirma: “Parece-me que a medicalização progressiva da linguagem da dor, da resposta à dor e do diagnóstico do sofrimento está em vias de determinar condições sociais que paralisam a capacidade pessoal de sofrer a dor” (1976). AMARANTE; FREITAS, 2015, p.28-29.
O sociólogo Talcott Parsons propõe quatro postulados relativos à função do doente na sociedade, são eles: a isenção das obrigações sociais normais aos ditos doentes; a isenção da responsabilidade sobre a sua própria doença; a perspectiva de que o dito doente reconheça que o seu estado de doente não é desejado e que se dedique numa recuperação; e por fim, que esta pessoa procure ajuda médica para guiar o seu tratamento. A partir dos postulados de Parsons podemos entender como, para haver a “deresponsabilização” pelo sofrimento psíquico daqueles que enfrentam algum mal, há de haver também um conjunto de concessões que permitem tornar tal dor em uma dor-doença. Ao fazer tal movimento, a pessoa que sofre abre mão da autonomia sobre como sofrer o que sofre, mas também é reconhecida como doente e, por isso, está livre de se submeter a regras sociais e obrigações que uma pessoa que estaria “bem” é exigida a cumprir. Separando-se dos sãos e aceitando a medicalização, também se individualiza o sofrimento, tornando o que é da ordem social e coletiva, um sofrimento causado por diversos fatores internos e externos, num problema individualizado bioquímico daquele indivíduo, desresponsabilizando não só ele mesmo pelo seu sofrimento, mas também quaisquer outro, não criando a possibilidade de uma vivência daquela dor como parte da vida e da criação de mecanismos para a superação dela. Para o mesmo sociólogo, este movimento se põe como protagonista a não só numa perspectiva micro, mas também numa análise macro da sociedade.
Produzir doentes e construir seu papel na sociedade são mecanismos fundamentais para a reprodução econômica e política do sistema, pois tal produção gera lucros e garante poderes não apenas aos profissionais da saúde, mas também para outros agentes político-econômicos. O papel do doente é igualmente funcional para as interações interpessoais, sob o ponto de vista da cultura e sociedade. E, muito particularmente, sob a ótica da formação da subjetividade propriamente dita. O portador de uma determinada doença dá sentido a determinadas representações sociais (cultura), reitera normas de interações existentes (sociedade) e se constitui em sujeito (subjetividade). AMARANTE; FREITAS, 2015, p.19.
O advento do DSM
Hoje os psiquiatras, médicos e a própria sociedade são guiados por um livro, uma bíblia, dos transtornos mentais, o DSM, que a cada edição engorda drasticamente, subjetivando mais corpos, transformando mais dores em doenças. Hoje este livro é a literatura que guia majoritariamente os paradigmas relacionados à doença mental, ele é ensinado em instituições de ensino, consultado por médicos em seus consultórios, é a partir dele que um diagnóstico é feito e um laudo é chancelado. Como mencionado anteriormente, é produzido pela American Psychiatric Association (APA).
A influência do DSM hoje é incontestavelmente globalizada. Significa que suas influências transcendem a sociedade dos Estados Unidos, onde ele é produzido. Ao exportar seus conceitos e tratamentos dos transtornos mentais, aquele país igualmente exporta os processos de medicalização. Por sua vez, desde 1948 a OMS [Organização Mundial de Saúde] publica e edita oficialmente a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde - mais conhecida como Classificação Internacional de Doenças (CID) -, que mantém uma racionalidade inseparável do DSM. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 44.
Seu processo de produção, ao contrário do que poderia ser esperado, é muito mais político do que científico. Isso na perspectiva de ciência como método e não validação de um discurso. Não é a partir de pesquisas ou alguma metodologia experimental que patologias são criadas e descritas no DSM, mas a partir de uma votação de um conselho que sustenta os diagnósticos propostos no manual. Não é raro que pressão da sociedade, governo e principalmente da indústria farmacêutica mude o rumo da próxima edição. Dentro desta ótica, é assustador como o destino de tantas pessoas é decidido por teorias que se contradizem, interesses financeiros, pressão popular, governamental e empresarial, ocorrências que pouco se misturam com a imagem de comprovação científica que o DSM tenta ostentar.
O processo de decisão de APA para a aprovação de cada revisão do DSM é um verdadeiro espetáculo. Mal comparando, é mais raro existirem lobbies de empresários, políticos, empresas de seguros, advogados ou de cidadãos organizados para discutirem descobertas na astronomia, na física, na matemática, na biologia ou em outros campos. Ainda que fundamentalistas político-religiosos questionassem a teoria da evolução, seria de se estranhar que a comunidade científica decidisse, por meio de votação, que a teoria de Darwin deveria ou não ser excluída da ciência. Entretanto, no campo da psiquiatria isso é o que predominantemente acontece, pois quem ganha é sempre quem detém o poder de impor seus interesses e de construir alianças. Na história do DSM existem elementos nos quais se misturam ciência com política e fatos científicos com fantasias. Afinal, existem dois imperativos científicos em relação aos quais a psiquiatria tem muita dificuldade em lidar: a confiabilidade e a validade. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 45.
O conceito defendido no DSM se sustenta na teoria do desequilíbrio químico no cérebro. Sem essa teoria, nem o DSM, nem a prescrição de psicotrópicos para qualquer sofrimento psíquico, faria sentido. O DSM parte de uma prerrogativa simples, cada transtorno ganha uma descrição comportamental e uma duração temporal necessária para se caracterizar como patológica, esta por sua vez é associada com um desequilíbrio de um, ou mais, dos seguintes neurotransmissores: a serotonina, a dopamina e a noradrenalina (os três neurotransmissores mais mencionados na literatura psiquiátrica), que são os neurotransmissores ligados principalmente, mas não só, à depressão, ansiedade e esquizofrenia. Trago aqui de maneira muito básica o que esta teoria supõe: que após o movimento sináptico, alguns neurotransmissores (que são as moléculas que passam os impulsos entre um neurônio e outro) são perdidos ou reabsorvidos (pelo neurônio), e por isso há um desequilíbrio na quantidade restante de moléculas (neurotransmissoras) causando uma reação alterada nas próximas sinapses13. Esta teoria ganha força nos anos 1950, com a introdução de psicotrópicos no mercado. Pois a utilização dessas drogas que alterariam a quantidade de neurotransmissores no cérebro, e a melhora imediata dos pacientes, principalmente a de esquizofrênicos, que muitas vezes não se tinha esperança de melhora, borbulhou as ciências médicas. Porém, como Amarante e Freitas ilustram a seguir, pouco científico realmente foi o experimento. É verdade, que num primeiro momento, há uma melhora dos pacientes com o tratamento de psicotrópicos, mas, por causa disto, chegar à conclusão de que transtornos mentais são causados por um desequilíbrio químico, parece um salto muito grande e sem fundamento algum. E que por sua vez só foi sustentado pelo paraquedas da confiabilidade do discurso de seus pares e de uma grande indústria que financiou este salto.
Quando começaram a ser empregados na década de 1950, muito pouco se conhecia a respeito de efeitos dos psicotrópicos no cérebro. A teoria do desequilíbrio da dopamina veio após o início da constatação de que um dos efeitos dos psicotrópicos era justamente bloquear o sistema dopaminérgico. A psiquiatria biológica deu um salto lógico, partindo das seguintes proposições:
-Se as drogas psicotrópicas curam a esquizofrenia (premissa maior);
-E se elas também bloqueiam o sistema dopaminérgico (premissa menor);
-A causa da esquizofrenia é a hiperatividade do sistema dopaminérgico (conclusão).
Ora, isso é tão lógico quanto dizer que as dores de cabeça são causadas pela falta de aspirina no corpo. Vários mitos passaram a ser construídos com a lógica baseada nas premissas da teoria biológica para as doenças mentais.
Em 1966, o neurocientista Steve Hyman, que foi diretor do National Institute od Mental Health (NIMH) de 1996 até 2001, publicou um artigo no American Journal of Psychiatry (Hyman, 1996) que sintetiza tudo que ele havia aprendido a respeito das drogas psiquiátricas. Os antipsicóticos, os antidepressivos e as demais drogas psiquiátricas funcionam criando perturbações nas funções neurotransmissoras. A pessoa submetida à medicação psiquiátrica passa a ter o seu cérebro funcionando anormalmente. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 80 – 81.
Deste movimento nos anos 1950, cria-se, ou melhor, consolida-se, uma assustadora aliança entra a indústria farmacêutica e a psiquiatria. Houve uma naturalização de que, se o transtorno mental é causado por um desequilíbrio químico, a única maneira de tratá-lo seria a partir de uma intervenção medicamentosa. Nesta naturalização, o poder médico, daquele que tem o conhecimento técnico que eu não tenho sobre o meu corpo, tende a ganhar quando o indivíduo está em medo ou em dor. Fazendo com que mesmo com inúmeras dúvidas e incertezas sobre o tratamento ser o melhor para o tratamento e para o alívio da dor, este seja construído como o único possível e o caminho natural para aquele que sofre deixar de sofrer. O movimento da indústria farmacêutica de manter esse o status do tratamento da dor inalterado quando pensamos em seu método de ocupar-se do corpo doente não é mínimo. O que só revela mais o caráter forjado da “naturalidade” deste viés de tratamento, se ele não fosse constantemente incentivado, mantido e reimplantado como único possível e natural, ele não se manteria.
A difusão de que a teoria do desequilíbrio químico não é uma teoria, mas na verdade uma lei, parece um ponto medular na psiquiatria contemporânea. Isto porque ela não pode ser questionada. Se for, ela não se sustenta. Não há nenhuma real base metodológica, tirando o efeito dos próprios psicotrópicos, que sustente a teoria do desequilíbrio químico no cérebro. Não existe a possibilidade de testar a quantidade de neurotransmissores no cérebro das pessoas em vistas de se seguir um diagnóstico. A prescrição de psicotrópicos na clínica, por sua vez, é feita por tentativa e erro, ou seja, testa-se para ver qual droga funciona com aquele indivíduo. São vários os passos que nada têm a ver com a teoria de um desequilíbrio químico, mas somente com a sustentação dela.
E, quando aprovados novos medicamentos, a legislação não requer que um novo medicamento seja melhor do que o antigo, nem mesmo que tenha efeito igual ao antigo, os órgãos de regulação exigem que as drogas sejam apenas melhores que o placebo. Isso permite que laboratórios relancem suas drogas com pouquíssimas alterações ou até com pioras, mas garantindo o aumento em seus lucros. Os psicotrópicos também são muito frequentemente prescritos para transtornos aos quais eles não foram indicados ou testados. São também prescritos para crianças sem que o medicamento tenha passado por testes para saber as indicações ou contraindicações, e são prescritos muitas vezes por médicos não psiquiatras, já que qualquer médico pode receitar psicotrópicos.
O remédio mais prescrito por não psiquiatras é o antidepressivo. O mito é de que este medicamento teria o efeito de mudar o humor do paciente e por isso ele vem sendo receitado não só para a depressão, mas para quaisquer condições que tenha um efeito negativo no humor do paciente, ou seja, ao bel-prazer do médico. Outro ponto essencial é pensarmos que a condição da tristeza, ponto principal sob o qual o diagnóstico da depressão se sustenta, nada tem de patológico, é parte fundante da condição humana no mundo, mas o movimento medicalizante e a aliança médico-fármaco, sob o discurso de acolhimento, não deixam de promover uma associação desse sofrimento com uma patologia. Movimento este que também exclui a possibilidade de a tristeza não patológica ser reconhecida como sofrimento e ser levada com dignidade nesta sociedade.
Há ainda uma problemática mais profunda nesta discussão, a real indicação e efetividade dos psicotrópicos. Em seus estudos, Amarantes e Freitas acompanham diversos estudos de follow-ups, que consistem em estudos que acompanham os indivíduos por um delimitado período de tempo após uma internação ou diagnóstico (dependendo do estudo). Eles percebem a pouca ênfase que as alternativas psicossociais têm nesses estudos, sendo a grande maioria estudos de follow-ups medicamentosos. Porém, em todos estudos que comparavam pacientes que recebiam tratamento medicamentoso, e paciente em que não recebiam tratamento medicamentoso e somente eram acompanhados com tratamentos psicossociais, os pacientes que não tomaram os psicotrópicos tiveram uma melhora significativamente mais alta do que aqueles que estavam usando os medicamentos. Isto porque, apesar de num primeiro momento poder haver uma melhora no quadro do paciente, depois de um tempo o próprio medicamento e seus efeitos colaterais podem causar uma piora no caso. Além disso, há um outro grande problema que é a dependência química que pode vir a ser desenvolvida por quem utiliza esses medicamentos. De todos os estudos apresentados pelos autores, decido trazer o mais longo, por acreditar que seja o com mais dados a serem analisados e também o mais surpreendente. O estudo foi mantido por Martin Harrow e Thomas H. Jobe durante 20 anos, o seu objetivo era analisar a necessidade de psicotrópicos no tratamento de pacientes diagnosticados com esquizofrenia. Para isso, eles dividiram os participantes do estudo (que na época do seu diagnóstico tinham em média 23 anos) em três grupos: os que fariam seu tratamento com acompanhamento das drogas medicamentosas sem interrupção; os que fariam uso das drogas de forma não continua no decorrer dos anos; e, por fim, o grupo que em momento algum usaria drogas psicotrópicas no seu tratamento.
O resultado deste estudo surpreende: ao longo de vinte anos, o subgrupo de pacientes que não tomaram antipsicóticos ou outras medicações psiquiátricas apresentou resultados de recuperação significativamente melhores que aqueles que tomaram antipisicóticos com ou sem outras drogas psiquiátricas. Para sermos mais precisos: no 4,5º ano, 86% dos que estavam tomando antipisicóticos e/ou outras drogas psiquiátricas apresentavam atividade psicótica, ao passo que apenas 23% dos sem medicação a apresentaram; no 10º ano, 79% versus 8%; no 15º ano, 71% versus 8%; e, finalmente, no 20º ano, 68% versus 8%.
Em termos de reospitalização, a diferença é igualmente enorme: no 4,5º ano, 54% dos que estavam tomando antipsicóticos e/ou outras drogas psiquiátricas voltaram para o hospital, contra 13% dos que não tomaram qualquer medicação; no 10º ano, 57% daqueles com medicação versus 0% dos que não tomaram qualquer medicação psiquiátrica; no 15º ano, 43% contra 0%; e, finalmente, no estudo feito no 20º ano, 50% versus 18%. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 91.
O que fica evidenciado é que não só as drogas não são necessárias para o tratamento, inclusive de transtornos considerados mais graves, como elas na verdade, no aspecto geral, têm um efeito prejudicial ao tratamento tanto a médio quanto a longo prazo. Este deve ser, e muito provavelmente é, o motivo pelo qual esse tipo de estudo, que compara o desenvolvimento de pacientes tratados somente com psicoterapias e pacientes que também fazem o uso de substâncias químicas, parece velado e pouco incentivado. Pois a existência deles, e da grande diferença entre a taxa de melhora entre os grupos de controle, descontrói a teoria do desequilíbrio químico e destrói a base da naturalização do discurso medicalizante da necessidade do tratamento medicamentoso e, inclusive, da própria patologização do sofrimento.
Este discurso medicalizante não é feito, porém, sem a crença de que a metodologia patologizante é boa e salva vidas, mas a capturar exponencialmente mais corpos para dentro desta lógica. O que ouvimos como sendo a epidemia da depressão é na verdade a epidemia da medicalização da tristeza. Disfarçada como problema de saúde pública, diferentes problemas sociais, culturais, políticos e até ambientais são deixados de lado nesta perspectiva ao interpretar uma grande tristeza, luto, desespero como um mal a ser enfrentado somente pelo poder médico.
Os números disponíveis evidenciam a epidemia da medicalização da tristeza em nossa sociedade. Em 2002, 11% das mulheres e cerca de 5% dos homens, nos Estados Unidos, tomavam antidepressivos. Em 2007, os antidepressivos passaram a ser as drogas mais frequentemente prescritas, superando os medicamentos para a pressão alta. Dados recentes vindos do Reino Unido são alarmantes: as prescrições de antidepressivos aumentaram 9,6% em 2011, chegando a 46 milhões. Dados do consumo de antidepressivos aqui no Brasil são pouco conhecidos, porém, muito provavelmente, nesse aspecto o país não foge dos padrões dos chamados países desenvolvidos, como Estados Unidos e Reino Unido. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 92.
Este cenário parece ser um movimento da história se repetindo, pois nos anos 1980 o Food and Drug Administration14 teve de afirmar que a ansiedade da vida não deveria ser medicada após o grande aumento do consumo de ansiolíticos nos anos 1970. Uma população americana que nos anos anteriores viveu um período de extrema instabilidade com a Guerra do Vietnã, o escândalo do caso Watergate, seguido pela renúncia de Nixon, e junto a isso a grave crise do petróleo dos anos 1973, vivia uma ansiedade coletiva pela perda de confiança na força de seu estado e, pior, pela ideia de que talvez o que eles estivessem defendendo não estivesse correto. No meio de uma instabilidade política, econômica e cultural, a população, e os médicos, se voltaram aos ansiolíticos para apaziguar as questões muito pungentes daquele período histórico. A ponto de criar uma geração de dependentes químicos, que o levaram a, na década seguinte, uma diminuição da indicação destes medicamentos e, inclusive, da medicalização da angústia.
Em outro estudo analisado por Amarante e Freitas, constata-se que Irving Kirsch publicou uma pesquisa, a partir de arquivos do FDA que conseguiu ter aceso, na qual investiga os efeitos dos antidepressivos no corpo de pacientes a partir das pesquisas feitas pelos próprios laboratórios. A conclusão que ele chega é que o efeito positivo dos antidepressivos no corpo era na verdade efeito placebo. Todos os remédios têm uma margem de melhora com o efeito placebo, porém, o chamado efeito droga15 dos antidepressivos era extremamente pequeno, além disso, não importa qual droga estivesse sendo testada, todas elas tinham o mesmo nível de melhora – 25%, inclusive drogas que foram testadas para avaliar o seu efeito antidepressivo, mas que na verdade não eram psicotrópicos antidepressivos, e por isso nada alteravam a quantidade de neurotransmissores no cérebro, foram essas drogas como o hormônio sintético da tireoide, barbitúrico (um depressivo) e um benzodiazepínico (um sedativo). Todos esses dados fizeram o pesquisar questionar se o efeito droga, de 25%, realmente provinha de uma melhora por causa do medicamento, ou se na verdade eram os efeitos colaterais negativos que faziam com que os pacientes com a droga ativa tivessem certeza de que não estavam tomando o placebo e por isso tivessem uma melhora maior, efeito que foi chamado pelo autor de placebo ativo.
A conclusão que chega Kirsch (2010) é que os antidepressivos são placebos ativos.
Contudo os antidepressivos não funcionam apenas como placebos ativos. Há abundantes evidências científicas de que os antidepressivos – como drogas psicoativas – produzem efeitos colaterais muito significativos na qualidade de vida de seus consumidores, alguns tragicamente devastadores. Essas drogas estão fortemente associadas ao aumento significativo de suicídios, em particular entre crianças e adolescentes. São pílulas que removem emoções fortes e fracas, que, de acordo com alguns pacientes, fazem que se sintam como “se fossem um queijo dentro de uma caixa”.
Os pacientes se preocupam menos com as consequências de seus atos, com frequência podem a empatia para com os outros. E podem se tornar muito agressivos. Por exemplo, nas chacinas em escolas dos Estados Unidos e qualquer outro lugar, é espantoso o número de adolescentes e jovens que usavam antidepressivos. Apesar de serem consideradas pílulas da felicidade, melhor seria se fossem chamadas de pílulas da infelicidade. De cada dez pessoas que fazem uso de antidepressivos, seis apresentam sérios distúrbios sexuais, apesar de terem uma vida sexual normal antes do início do tratamento com a medicação. Os sintomas incluem perda de libido, retardamento ou inexistência de orgasmo ou ejaculação, disfunção erétil. Sem dificuldades pode-se ter uma ideia dos danos produzidos para a vida dos casais em seu cotidiano.
Ademais, dificultam em muitos casos as relações interpessoais ao alterarem o modo como seus pacientes reagem emocionalmente às situações corriqueiras, movidos que estão pela promessa de felicidade artificialmente criada. A promessa que trazem a felicidade é um mito nefasto para a sociedade. Os antidepressivos são tão graves para a saúde pública que o médico dinamarquês Peter Gotzsche, pesquisador e líder do Nordic Cochrane Center, instituição especializada em analisar as evidências das pesquisas realizadas no campo da medicina, recomenda que todas essas drogas psiquiátricas em geral, sejam retiradas do mercado, pela incapacidade da grande maioria dos médicos de saber lidar com elas. (Gotzsche, 2015). AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 99 – 100.
A problemática continua sendo que cada vez mais partes da vida se tornam questões aos olhos da medicina, visto que “para que a indústria farmacêutica tenha êxito na expansão de seus negócios é imprescindível a criação de novos doentes.” (AMARANTE; FREITAS, 2015, p.33). Assim, a cada nova patologia adicionada no DSM, uma possibilidade de existência é patologizada e podada da sua potência no mundo. Também começa a ser vigiada e nela é investido um cuidado medicamentoso de domesticação químico, e também social. É importante pensar, também, quem são os sujeitos que estão mais fortemente sendo medicalizados. Mulheres, crianças, idosos, penitenciários... E se estes corpos são mais medicalizados do que outros, parece-me que é pelo afastamento da régua da normalidade produtiva. Quando analisamos os dados de consumo de ansiolíticos, “de cada três prescrições, duas são feitas para mulheres.” (AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 101).
A guerra ideológica e discursiva parece trazer cada vez mais corpos para dentro da lógica patologizante, e depois desses dois casos mencionados anteriormente, que são datados à produção do DSM-III em 1980, a perspectiva do livro foi sempre de aumentar o seu catálogo.
Após sete anos surge, em 1987, uma nova revisão do DSM (o DSM-III-R). Anos depois é publicado o DSM-IV (1994) e em 2000 o DSM-IV-TR (texto revisado). A cada versão, cresce o número de diagnósticos identificados, tendo esse aumento atingido mais de 200% entre o DSM-I e o DSM-IV-TR. Em maio de 2013 foi lançado o DSM-5, com um acréscimo de aproximadamente 12% de categorias de diagnóstico com relação à versão anterior. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 63.
Para que haja esse aumento no número de patologias, é necessário que o que antes era esperado durante a vida e considerado um comportamento normal dos seres humanos, se tornasse doença. Aqueles mais vulneráveis se tornam os mais suscetíveis às investidas medicalizantes. Segundo Amarante e Freitas, estima-se que em instituições voltadas para as populações idosas cerca de ¼ dos internos esteja utilizando algum tipo de psicotrópico. Os riscos para a saúde física destes indivíduos são muitos, e muito maiores do que para jovens, mas a justificativas para o seu tratamento com tais medicamentos parece, para os médicos, superar os riscos. As razões pelas quais esta população vem utilizando tal medicação vão de demência, psicose, agitação até transtornos afetivos.
Este movimento de patologizar cada vez mais produz mais atrito entre a saúde e a patologia, deixando pouco espaço para uma vida realmente ser vivida. A medicina junto com a indústria farmacêutica produz novas doenças para poder, então, medicá-las. “A lógica dessa aliança reduz cada vez mais o território dos normais a uma ilhota”. (AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 132).
A identidade patologizada
Isto posto, fica claro a (i)responsabilidade da APA ao formular o DSM, pensando na abrangência desta literatura, enquanto repercussão dela dentro da clínica, mas principalmente no seu poder de criação de identidades DSMzadas, consolidando na contemporaneidade uma nova forma de subjetificação dos corpos. “Deter o privilégio de classificar significa também deter o privilégio de atribuir diferentes valores aos grupos assim classificados.” (SILVA, 2014, p. 82). Ao propor o patológico, o resultado final na verdade é a consolidação do considerado normal, e no caso do DSM os diferentes níveis que aproximam ou afastam um sujeito da normalidade. Porém, é somente a partir da patologia que um pode se considerar saudável, é somente a partir da loucura que há parâmetros para se considerar são. Assim
podemos dizer que a identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada, A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas. (SILVA, 2014, p. 96)
Não existe sanidade sem loucura. Isto porque ambas são construções culturais e sociais às quais nós significamos, nenhuma delas simplesmente existe no mundo, mas foram ambas produzidas. E não haveria sentido de se haver sanidade, se antes não existisse a loucura. Uma depende da outra para existir.
Numa visão mais radical, entretanto, seria possível dizer que, contrariamente à primeira perspectiva, é a diferença que vem em primeiro lugar. Para isso seria preciso considerar a diferença não simplesmente como resultado de um processo, mas como o processo mesmo pelo qual tanto a identidade quanto a diferença (compreendida aqui, como resultado) são produzidas.
[...]
Além de serem interdependentes, identidade e diferença partilham uma importante característica: elas são resultado de atos de criação linguística. Dizer que são o resultado de atos de criação significa dizer que não são “elementos” da natureza, que não são essências, que não são coisas que estejam simplesmente aí, à espera de serem reveladas ou descobertas, respeitadas ou toleradas. A identidade e a diferença têm que ser ativamente produzidas. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental, mas do mundo cultural e social. Somos nós que as fabricamos, no contexto de relações culturais e sociais. A identidade e a diferença são criações sociais e culturais. SILVA, 2014, p. 76.
Contudo, não estamos falando aqui de uma diferença, o DSM-5 propõe mais de 300 diferenças traduzidas em transtornos. É espantoso o número de patologias que foram criadas em busca de categorizar todos os sofrimentos com precisão. Mas existe aí uma potência de andar nas bordas desta classificação, pois é ali, na fronteira entre a normalidade e a anormalidade, da sanidade e da loucura, de uma patologia e outra, que toda a catalogação se revela artificial. É também nesta área cinza que mais eficazmente se descontrói o que parece ser indestrutível.
A fronteira é um lugar de relação, região de encontro, cruzamento e confronto. Ela separa e ao mesmo tempo, põe em contato culturas e grupos. Zona de policiamento é também zona de transgressão e subversão. O ilícito circula ao longo da fronteira. Ali os enfrentamentos costumam ser constantes, não apenas e tão somente através da luta ou do conflito cruento, mas também sob forma de crítica, do contraste, da paródia. Quem subverte e desafia a fronteira apela, por vezes, para o exagero e para a ironia, a fim de tornar evidente a arbitrariedade das divisões, dos limites e das separações. LOURO, 2015, p.20.
É na lambança entre um transtorno e outro, um diagnóstico e uma contradição, que são criadas as possibilidades de uma vida mais autônoma e menos domada pelo poder médico. Porque Kraepelin e Bleuler já evidenciavam o quanto os transtornos passam por cima uns dos outros, e suas definições se misturam, gerando sempre um diagnóstico subjetivo a partir da subjetividade do médico. Mas também deixando sempre aberto um espaço de escape para os corpos e sofrimentos que sempre escapam à norma.
É de fundamental importância para essa pesquisa que se compreenda que o que se busca aqui não é a desvalidação do sofrimento vivido por tais corpos. Muito pelo contrário, pensar porque é só a partir da patologia que este sofrimento é validado. Como que o discurso patológico se funda e se mantém como provedor e mantenedor da vida. Mas vida como oposição de morte biológica e não vida como experiência humana.
Defende-se a vida a qualquer custo, mas não lhe dá qualquer possibilidade de existência. É alguém que concebe, mas não se afeta, entra em luto pela vida perdida, mas não acessa a pseudovida que promoveu. Assim também o poder médico cria patologias para também se afastar intimamente dos doentes. Não há uma relação com pessoas e sim com corpos. Biológicos, químicos, anatómicos, celulares, patológicos, desumanizados. Luta-se pela vida como objeto a ser mantido intacto, como um bem material, como um vaso de cristal na mão de uma criança desastrada, que precisa rapidamente ser retirado das mãos dela. Porém, o cristal é dela.
Entender a vida não somente como a oposição à morte biológica e, assim, compreender-se o maior conhecedor da própria vida, faz resistência a movimentos tão enraizados no saber, que parece não poder ser questionado. Todo este movimento difuso, sem direção ou regras, que só pode ser pautado na construção de algo novo, e esse novo não essencializador, nos move em direção a uma vida mais livre. Este movimento se coloca fundamental, porque com mais intensidade do que em qualquer outro momento da história da humanidade “perdemos a autonomia. Tendo em vista que para sermos sujeitos nos sujeitamos ao poder médico-farmacológico, consequentemente menos sujeitos somos em relação ao nosso pensamento, ao nosso modo de agir e ao que sentimos.” (AMARANTE; FREITAS, 2015, p.34). É possível pensar de outra maneira.
A loucura assume duas variantes básicas: a lenta e a rápida.
Não estou falando do seu início ou da sua duração. Refiro-me à qualidade da loucura, ao problema cotidiano da piração.
Os nomes são muitos: depressão mania, ansiedade, agitação. Não dizer grande coisa.
A qualidade predominante, na forma lenta, é a viscosidade.
A experiência se faz espessa. As percepções se adensam e embotam. O tempo se arrasta, pingando lentamente pelo filtro entupido de uma percepção adensada. A temperatura do corpo é baixa. O pulso é preguiçoso. O sistema imunológico fica meio adormecido. O organismo torna-se turvo e salobro. Até mesmo os reflexos se reduzem, como se a nossa perna não tivesse ânimo para sair do torpor e reagir com um chute à marteladinha no joelho.
A viscosidade se dá nas células. O mesmo acontece com a velocidade.
Ao contrário do coma celular da viscosidade, a velocidade investe cada plaqueta e fibra muscular com um pensamento próprio, um meio de conhecer e comentar seu comportamento. Há uma percepção exacerbada e, para lá da infinidade de percepções, uma infinidade de pensamentos sobre essas percepções. A digestão é capaz de matar! O que quero dizer é que a percepção ininterrupta dos processos digestivos pode matar de exaustão. E a digestão é apenas uma digressão de pensamento, que é onde começa o verdadeiro problema. KAYSEN, 2013, p. 87 – 88.
Já existem corpos resistindo a essa lógica. O movimento patologizador invisibiliza outras experiências de cuidado e acolhimento do sofrimento que são muito mais férteis e potencializadoras. Um outro exemplo foi a casa Soteria, inaugurada em abril de 1972, que tinha como objetivo ser um lugar de acolhimento para indivíduos psicóticos que seriam internados em hospitais.
O termo soteria deriva do vocabulário grego sõtēria, constituindo este a raiz do significado da palavra salvação. O projeto do modelo Soteria foi concebido com base em pioneiros da psicanálise – notadamente Henry Stack Sullivan e Frieda Fromm-Reichmann -, de terapeutas que descreveram o crescimento a partir da psicose – como Karl A. Menninger -, dos críticos das instituições asilares – como o norte-americano Erving Goffman – e, por fim, de um grupo de psiquiatras da época considerados heréticos – como Ronald D. Laing, David Cooper, Thomas Szasz E Franco Basaglia. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 115.
Aberta como uma alternativa à opção patológica, o projeto se colocava mais como uma casa, um ambiente familiar, do que como um hospital. As pessoas que acompanham os internos na sua jornada dentro do projeto não eram profissionais da saúde, e sim sujeitos treinados a encarar a loucura de frente, como processo necessário daquelas pessoas, como passagem, e eram instruídos a não controlar ou suprimir as crises, mas sim acompanhá-las para tentar entendê-las sem categorizá-las ou domesticá-las. O projeto não utilizava de nenhuma droga como resposta imediata para as crises e seu método heterogêneo baseava-se na obtenção de recursos para se lidar com a crise provinda do próprio indivíduo.
Pacientes, equipe, familiares e rede sociais dos pacientes sabiam que o projeto coletivo era o de garantir que o curso natural da crise fosse enfrentado em conjunto. Além da negação ao manicômio para dar conta da crise, era sistematicamente negado o recurso farmacológico como resposta imediata. A crise pessoal ou de desenvolvimento era para o modelo Soteria o termo operante, a razão para a abertura da experiência aos outros envolvidos no processo interativo. A abordagem evitava, concretamente, o modelo teórico médico e/ou modelos teóricos monológicos. AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 114.
Apesar do grande sucesso no tratamento e na qualidade de vida daqueles que passaram por Soteria, o projeto finalizou em 1982 por falta de financiamento do NIMH. Apesar disto o projeto respondeu a sua questão central, pessoas diagnósticadas com esquizofrenia podem ser tratadas com sucesso fora do ambiente hospitalar e sem drogas antipsicóticas. A experiência de Soteria vem sendo replicada em países da Europa, tendo hoje abertas três réplicas: uma em Berna, uma em Zwiefalten e uma em Munique.
O ponto central é como existir um acolhimento que possa não normatizar a dor. Já existem modelos que tentam ultrapassar essa barreira e que propõem outras formas de acolhimento. Mas no cenário macro ainda é difícil imaginar uma assistência “sem criar uma população que não seja chamada de ex-paciente, sobrevivente da psiquiatria ou curado.” (AMARANTE; FREITAS, 2015, p. 132). Por outro lado, no micro, no corpo, na interação pessoal, podemos começar a existir de novas maneiras, sabendo que a maneira como existimos até agora não era a única possível, que a verdade que nos era imposta não é tão dura e o acolhimento que queremos oferecer pode ser mais livre.
Referências
AMARANTE, Paulo; FREITAS; Fernando. Medicalização em Psiquiatria. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2015.
FOUCAULT, Michel. O nascimento da medicina social. In: . Microfísica do poder. 5ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017. p. 143-170.
KAYSEN, Susanna. Garota, interrompida. São Paulo: Editora Gente, 2013.
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
PELBART, Peter Pál. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2011.
SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: . Identidade e diferença: A perspectiva dos Estudos Culturais. 15ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 73-102.


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